quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


|Último ato| 

Olha firme e consistente para aquele ser à sua frente e diz: tu sabe...já me declarei tantas vezes que, sei lá, mas.. fazer o que? gosto tão imensa e quase insanamente de ti 
[respira fundo, serena]

Gosto da tua companhia, do teu efeito sobre mim, de como somos (im)perfeitos juntos, das tuas tantas variantes, do “caos” que trazes contigo, de olhar no teu olho e me reconhecer, de te sentir ouriçar minha nuca, de te ver acreditando e duvidando do que prometemos sem sequer declarar…
[mexe suave e controladamente um ombro de cada vez, em quase desapercebidos movimentos gangorra, alinhando o desejo, como que num sutil ensaio de vontades, e segue] 

Gosto da falta orgânica que meu corpo sente do teu
[pensa no cheiro, no gosto, no toque, na força… e então, involuntária, comprime as coxas ondulando o quadril que retesa… e falhamente impávida, segue]

Gosto de como tu desliza me atravessando a carne, os sentidos e o coração
[ofegante, peito cadenciado em curtas respirações quentes, inalando memórias e exalando vontades, que pensa controlar… mas se mantém, firme no propósito diz]

Gosto do sorriso espontâneo no ápice da conjunção quando contrai e explode em ondas espasmódicas secretando o mais poderoso e letal dos antídotos… e quando meu coração pulsa em versão alada ativada pelo teu vigor refletido no espelho da nossa miragem
[agora o corpo estremece desde o ventre… calor por todos os poros, e a pele já não mais contém. Mas ela baixa os olhos e volta com o semblante remodelado. E segue…] 

Gosto da anacro-sincronicidade dos diálogos e elocubrações que desenvolvemos tão livres, naturais, que fluem em sintonia de uma lógica nonsense que nos é peculiar, e que pueril me faz querer ser aquela à quem tu daria “sopa”
[sorri com o canto do olho e da boca, num carinho nu, e uma alegria que abraça. E segue…]

Gosto de acreditar (que é amor), de pensar futuros mirabolantes e ainda assim tão possíveis…
[sente a garganta apertada na imensidão do que guarda em si] 

Era sobre isso que queria poder falar contigo, saber se continuo sonhando...
[oscilando entre resignar e renegar sua natureza avassaladora ela diz, parecendo forte] 

Então fico imaginando se você volta… se “a gente” existe em alguma realidade, ou se estou (amando) sozinha.
[baixa a cabeça, maneia para a esquerda, como que contrariada a encarar o sol do meio dia, disfarça a dor, e diz… com o peito já em sangria]

Nesse caso, vai doer, apocalipticamente, mas enfrentarei a imensidão dessa queda livre.
[agora é mais que uma, é todas… todas as vezes que acreditou no amor. E derrama sua voz num ato etílico violinizado dizendo em um esparançoso Dó maior]

Mas, se “a gente” ainda existe, seremos arrebatados para o mundo mágico que só existe quando eu e tu estamos conectamos.
[pausa, o drama tudo turva, numa luz que desatina. Os dois gargalham, quando ela os revela… indagando] 

E agora, Batman, me diz… estou em perigo? Qual das pílulas devo tomar? 

Duas peças em um desato-ato-desatino.

|Fim de cena|

Seus olhos cortejam a insanidade.
O público ensurdece pelo silêncio oco.


Mal sabem que a tragédia se deu nos bastidores: ESTÓICA. 

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